O trabalho do pesquisador Guillermo Orozco Gómez, professor da Universidade de Guadalajara, México, tem por foco principal o uso pedagógico dos meios audiovisuais. Doutor em Educação pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e mestre em Comunicação pela Universidade de Colônia, na Alemanha, foi coordenador do grupo de trabalho sobre estudos de recepção da Associação Latino-americana dos Investigadores de Comunicação (Alaic), e publicou diversos livros, como Televisión y audiencias, un enfoque cualitativo (1966) e Televisión, audiencias y educación (2001).
Globo Universidade – Professor, fale um pouco para nós, brasileiros, da sua trajetória.
Guillermo Orozco – Bem, nasci em Guadalajara, há quase 57 anos, que espero não sejam muito notados... Filho de um médico e de uma professora, vivi até os 24 anos na minha cidade natal, mas o que quero ressaltar é que tive muita dificuldade para gostar da escola. Não queria ir à escola e vivia fugindo dela, em parte porque não gostava da professora que me coubera, em parte porque queria mesmo era ficar em casa. A coisa era tão grave que meus pais decidiram me tirar da escola, o que me fez ficar atrasado um ano nos estudos. Mas o fato de, a partir de então, ser sempre mais velho que os meus colegas de turma foi de algum modo importante para mim. Eu sentia que tinha mais experiência que eles, o que me permitia ver algumas coisas que eles não viam.
GU – Então, nas suas dificuldades com a escola estaria a origem do seu interesse futuro por processos pedagógicos mais dinâmicos?
GO – De fato, em todo o meu período escolar não senti satisfação. Tinha de estudar por obrigação. Até fui um bom estudante, mas apenas para agradar a meus pais, e minha maneira de ser bom estudante era muito particular: eu sempre procurava ter o menor trabalho possível. Como era um sistema de ensino baseado na memória, e como eu tinha boa memória, costumava chegar à escola uns 40 minutos antes das provas e decorava nesse tempo tudo o que não tinha aprendido antes. Mas já nos últimos anos do curso secundário descobri que a escola era algo mais, e comecei a participar um pouco mais de atividades culturais, exposições, coisas assim. E, embora tenha hesitado quanto à carreira universitária que devia seguir, acabei optando por Comunicação. Era uma carreira nova, e o curso universitário de Comunicação fora recentemente aberto — estamos em 1970 — na Universidade dos Jesuítas de Guadalajara. É verdade que, no primeiro ano de faculdade, não me senti muito motivado. Mas acabei desfrutando de fato, até emocionalmente, da carreira universitária, e cheguei a concluí-la antes dos cinco anos normais. Logo fui fazer uma pós-graduação.
GU – Já havia o interesse por algum tema em particular?
GO – Sim, a educação. Logo vi que para um comunicador é muito importante ter uma técnica pedagógica e didática. E, quando ainda estava no curso de Comunicação, tive oportunidade de trabalhar numa organização não-governamental de educação popular, e o nosso desafio era como pôr a comunicação a serviço das comunidades muito pobres que vivam em favelas na periferia da cidade de Guadalajara. Mas foi então que tive, sobretudo, a oportunidade de ler a Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, o que mudou muito minha maneira de pensar os problemas sociais. Naquele livro, e no restante da obra do autor brasileiro, encontrei uma proposta pedagógica e uma filosofia educacional muito claras, e sobretudo totalmente aplicáveis à realidade mexicana.
GU – Conheceu pessoalmente Paulo Freire?
GO – Conheci, sim, na Universidade de Harvard, onde fui fazer meu doutorado em 1982. Foi uma grande alegria para mim travar relações com aquele homem que tinha sido tão importante na formação da minha maneira de ver a realidade. Antes desse encontro, porém, em 1974 consegui uma bolsa para estudar na cidade alemã de Friburgo (Freiburg), e terminei uma primeira especialização em Pedagogia na cidade de Colônia (Köln). Só não quis continuar na Alemanha porque vi que lá ninguém sabia nada da América Latina nem eu me sentia preparado para definir ali um projeto acadêmico para um doutorado. Voltei para o México em 1977, mas não para Guadalajara, e sim para a Cidade do México, onde comecei a trabalhar numa instituição nova, de Estudos do Futuro, onde eram elaborados projetos educacionais.
GU – Era uma ONG?
GO – Não, era uma entidade semi-autônoma, mas vinculada ao Ministério da Educação. Éramos 15 ou 16 pesquisadores que, com toda a tranqüilidade, fazíamos propostas exeqüíveis para planejar o cenário da educação no futuro. E a essa instituição chegou um dia um mestre de Harvard especialista em planejamento educacional, reconhecido mundialmente: Noel McGinn. Logo sentimos uma empatia mútua, entre outras razões, pelas muitas coisas que compartilhávamos e especialmente por sua maneira de ser. Foi o melhor professor que tive; é desse tipo de professor que ensina para a vida. Tive o privilégio de conviver com ele dois anos, e escrevemos juntos o meu primeiro livro: La asignación de recursos económicos en el sector educativo – Un proceso técnico en un contexto político. Foi para mim uma experiência grandiosa. E foi por convite dele que eu e a minha futura esposa fomos para Harvard. Queríamos então ir para Stanford, onde estava o melhor grupo de educadores do momento, de tendência neomarxista, e que combinava política e educação. Uma corrente crítica de renovação educacional. Mas o convite de McGinn, que incluía a continuidade do nosso trabalho conjunto, acabou por prevalecer. Além do mais, ele prometeu que nos ensinaria a fazer vinho!
GU – Quanto tempo levou para concluir o doutorado em Harvard?
GO – Três anos. Mas o que eu destacaria especialmente de Harvard é que foi lá que criaram o programa educativo chamado Vila Sésamo (Sesame Street), que revolucionou a maneira de fazer televisão educativa. E, afinal, o que aprendi em Harvard foi, sobretudo, que fazer um programa educativo na televisão não pode se resumir a dar um microfone ao professor para que dê sua aula. Usar o meio televisivo para falar e falar é não explorar todas as suas potencialidades. E cheguei à conclusão de que o problema não consistia somente em que era preciso fazer programas educativos desta ou daquela maneira; o fato é que as crianças, os jovens, as pessoas em geral podem aprender com qualquer tipo de programa de televisão. E às vezes efetivamente aprendem mais vendo uma telenovela ou um filme. Logo, o problema central está em como aproveitar a televisão como um todo para aumentar o aprendizado.
GU – E isso vale apenas para a televisão, ou para qualquer meio de comunicação?
GO – Para qualquer meio. Trata-se de saber como formar um espectador crítico, um leitor crítico e assim por diante, para que eles próprios demandem dos meios que melhorem o nível de sua oferta. Como pesquisadores, como pedagogos, não podemos intervir diretamente nos meios de comunicação, mas podemos intervir nas escolas, nos grupos de pais, nas comunidades para elevar o seu espírito crítico e sua capacidade de julgamento. Se penso no México, tenho de me perguntar quem está de fato educando nossas crianças: a família, a escola ou a televisão? O que fiz no meu doutorado foi precisamente confrontar o papel deles, e a minha tese versou exatamente sobre isso. Toda e qualquer estratégia de intervenção pedagógica terá de partir das conclusões dessa confrontação, que, é claro, leva em consideração as famílias segundo sua classe social e os diversos tipos de escola, ou seja, se é pública ou particular, se é mais conservadora ou mais aberta, se é de caráter mais ou menos participativo. Dependendo de todas essas e muitas outras variantes, em alguns casos educa mais a família, em outros, a escola, em outros, as duas juntas e em outros, finalmente, a televisão.
GU – A televisão tende a ser superada por outros meios, como a internet?
GO – Não creio, por mais importante que seja o papel da internet. A televisão, sobretudo na América Latina, continuará a ser o meio que agrega em torno de si a família e não perderá o papel importante que tem.
GU – E suas propostas são bem aceitas no mundo acadêmico?
GO – Eu diria que elas são mais bem aceitas pelos acadêmicos brasileiros, mas muitos grupos de diversos países tomaram muitas idéias de meus livros. Isso para não falar da minha intervenção pessoal na própria realidade mexicana, que nunca deixou de crescer. Mas sobretudo muitos têm tomado a minha idéia de brincar com a televisão, ou seja, de ter um ensino e aprendizado lúdicos. Brincar com a televisão, brincar a partir da televisão e brincar de televisão tanto na escola como na própria família.
GU – Poderia explicar o que é brincar de televisão?
GO – Brincar de televisão é, na verdade, uma forma de “produzir” televisão, de entender o princípio de representação. É começar a entender que qualquer tela é uma reprodução da realidade, não a realidade mesma. Através de coisas que as crianças põem por sua livre escolha num papel que será apresentado como uma tela de televisão, elas verão que o que aparece na tela é justamente aquilo que elas escolheram ou selecionaram. É muito importante que as crianças aprendam esse princípio para que a televisão possa ter uma verdadeira função educativa. Naturalmente, isso é mais para as crianças do primeiro grau. No segundo grau, fazemos mais análises de programas, ou estudamos história a partir de um filme de época, ou utilizamos um campeonato de futebol e suas probabilidades estatísticas para ensinar matemática.
GU – O senhor veio ao Rio para participar do IV Seminário Internacional do Observatório Ibero-Americano de Ficção Televisiva (Obitel). Qual é a importância desse projeto?
GO – A idéia do projeto Obitel, que nasceu em fevereiro de 2005, em Bogotá, e do qual sou hoje o coordenador, é observar em vários países a ficção televisiva, fundamentalmente séries e telenovelas, que são os produtos mais característicos da televisão latino-americana, tanto a de fala portuguesa como a de fala espanhola. Trata-se de acompanhar como está andando a promoção, a transmissão e a recepção da ficção televisiva em nove países: Portugal, Espanha, Estados Unidos, México, Colômbia, Peru, Brasil, Chile e Argentina.
GU – Os Estados Unidos também?
GO – Sim, Miami é agora uma meca de produção televisiva latino-americana, sobretudo hispano-americana. Tornou-se um centro de cultura latina em geral, moderna e pós-moderna. Um fenômeno muito interessante. Mas voltando ao projeto, já tivemos dois congressos no Brasil, dois na Colômbia e um em Guadalajara, no México, tendo sempre em vista um diálogo que permita a todos aprender uns com os outros. E quero deixar registrado que especialmente a Rede Globo, no Brasil, entendeu bem a finalidade e utilidade do projeto, e tem nos ajudado muito.
GU – Para terminar nossa entrevista: algum livro novo?
GO – Sim, estou terminando um, que, no entanto, devido às tantas coisas que tenho para fazer, está, digamos, em stand by. Chama-se Al filo de las pantallas, que procura mostrar o muito que ainda temos de aprender para aproveitar pedagogicamente toda a grande riqueza da televisão.
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