domingo, 31 de agosto de 2008

Entrevista com o professor Enio Candotti( Físico e ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência)

Ciência ao alcance da sociedade

O italiano Ennio Candotti, que emigrou para São Paulo ainda menino, em 1951, há anos se dedica ao exercício e à divulgação da ciência no país. Formou-se em Física pela Universidade de São Paulo (USP), em 1964, atuou como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) de 1974 a 1996, e desde então é professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Possui especializações em Relatividade pela Università degli Studi di Pisa (Itália), em Física Matemática pela Ludwig-Maximilians Universität München (Alemanha) e em Sistemas Dinâmicos pela Università degli Studi di Napoli (Itália). Foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) de 1989 a 1993, e depois mais uma vez de 2003 a 2007. Está entre os fundadores das revistas Ciência Hoje e Ciência das Crianças e da versão argentina, Ciencia Hoy. Em 1999 recebeu o prêmio Kalinga, da Unesco, por sua contribuição à popularização da ciência.


GU – O que lhe motivou a se dedicar à Física e, em especial, à divulgação científica?
Ennio Candotti – Optei por Física, primeiramente, por ser uma paixão de criança. Lembro que meu avô me deu de presente um livro de divulgação científica de Física, que eu lia no navio quando viemos para o Brasil. A obra tratava de vários temas científicos como Física, Paleontologia, Geologia e Astrofísica. Apesar de não ter sido bom aluno em Física e em Matemática, sempre tive interesse genuíno no assunto. Mas, por teimosia, acabei fazendo Física. Eu não tinha tanta habilidade quanto os que têm facilidade. No entanto, eu tenho grande facilidade de expressão gráfica. Isso me levou um pouco à divulgação científica em que as idéias podem se associar a imagens. Acho que essa inclinação para as artes, para imagem, eu pude desenvolver por meio das minhas atividades de criação e de mobilizações científicas e educacionais na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

GU – Como se deu a concepção das revistas de divulgação científica Ciência Hoje e Ciência das Crianças?
EC – A Ciência das Crianças, de 1986, foi inspirada no Corriere dei Piccoli, uma espécie de jornal dos pequenos, que li durante a infância. O Ângelo Machado, escritor e divulgador de ciência para crianças, e o italiano Claudiano Calvi, ilustrador premiado de livros para crianças, que também tinha sido influenciado na infância pelo Corriere dei Piccoli, trabalharam comigo na concepção da revista. Assim, não precisamos discutir muito o formato que queríamos, pois nossas intenções eram as mesmas. A Ciência das Crianças é disponibilizada nas bancas, por meio de assinaturas e comprada pelo MEC para distribuição em todas as escolas. A tiragem é de 250 mil exemplares, sendo 200 mil destinados a escolas. Já a Ciência Hoje [que também tem uma versão on-line] foi pensada logo após minha graduação, em 1970, quando retornei à Itália. Lá eu colaborava com uma revista de divulgação científica chamada Sapere. Assim, quando eu vim para o Brasil, já tinha na cabeça a idéia de criar uma revista semelhante a essa. Em 1982, um grupo grande, ligado à SBPC, resolveu se empenhar e, com apoio do CNPq, obtivemos os recursos necessários para o lançamento da Ciência Hoje, a única revista produzida e escrita por cientistas no Brasil. Em 1990, ela tornou-se mensal em vez de bimestral e, em 2000, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas nos cedeu a casa onde funciona o Instituto Ciência Hoje, criado para dar maior flexibilidade de operação à publicação. O Instituto também cuida do Jornal da Ciência, periódico quinzenal que mobiliza toda a comunidade científica com grande velocidade.

GU – Qual é a importância de uma publicação feita por cientistas?
EC – Em divulgação científica, é muito importante, ao mesmo tempo em que se diz o que se sabe, as incertezas do que se sabe. O cientista pode trabalhar com hipóteses, lançar dúvidas, o que o profissional da comunicação não pode fazer, pois sua ética parte da fidedignidade da informação. Esse é um fato importante na divulgação científica, em que não há a obrigatoriedade de comprovar e nem mesmo de se fazer entender. O objetivo é que o leitor entenda o conjunto da exposição. Independentemente da publicação em si, o fato é que a iniciativa de criar a Ciência Hoje foi capaz de gerar um movimento no Brasil de atenção para a divulgação científica. Hoje, você tem muitos jornalistas científicos e fotógrafos de ciências. Você tem até cineastas que trabalham só com ciência.

GU – E a versão argentina Ciencia Hoy...
EC – Eu passei um ano na Argentina, em 1988, para criar a revista Ciencia Hoy. Ela foi resultado do trabalho de um grupo de dez cientistas e físicos, e está completando 20 anos este ano. O projeto gráfico da versão argentina é o mesmo que o da brasileira. A idéia inicial era que se fizesse uma irmã para a Ciência Hoje. Mas a publicação agora caminha por si só, e é dirigida por um grupo de lá mesmo. Nosso foco no momento é intensificar o intercâmbio ente a comunidade científica brasileira e a argentina. Todos os anos, realizamos encontros importantes, alguns envolvendo o Uruguai também. Mas essa ligação ainda não é estreita o suficiente para permitir que estudantes brasileiros possam fazer algumas disciplinas na Argentina, estudem na Patagônia, por exemplo, enquanto argentinos venham estudar na Amazônia, mas caminhamos nessa direção. É possível que estes sejam os primeiros passos, e, daqui a 20 ou 30 anos, haja a possibilidade de mantermos um intercâmbio grande, uma circulação intensa pelos laboratórios da América Latina.

GU – O que ainda é preciso fazer para incentivar a pesquisa científica e tecnológica no Brasil?
EC – O investimento em pesquisa é fundamental, pois as prioridades sociais exigem conhecimento científico. A situação era muito pior no passado. Atualmente tanto a comunidade científica quanto a disponibilidade de recursos têm crescido. Acredito que uma parcela do lucro dos bancos, por exemplo, deveria ser investida em ciência e tecnologia. Isso seria de grande retorno até para os bancos, que disporiam de mais gente com capacidade de usar bem os sistemas atualizados de gestão. Outro investimento que se faz necessário é a formação de professores, porque o número de quadros técnicos existentes ainda é muito pequeno em relação ao desafio do país. Isso acontece porque não conseguimos atrair para a Física jovens que têm talento nessa área. Agora, nós temos falta de 100 mil professores de Física, por exemplo. Há 2 mil cientistas que estudam a Amazônia, enquanto o mínimo necessário seria de 10 mil. Não há como enfrentar o desafio da Amazônia sem ter, não só cientistas, mas também engenheiros, sanitaristas, antropólogos e biólogos. De todo modo, o mais importante é a mobilização, a politização da comunidade científica, que não pode ficar alheia aos problemas sociais e políticos.

GU – O papel precípuo da ciência seria, então, social?
EC – Certamente. Considerar o papel social da ciência é uma necessidade, e não uma opção. A figura do cientista fechado em seu laboratório trabalhando já caducou. Não se constrói uma comunidade capaz de dar respostas científicas e tecnológicas para os desafios do país com cientistas trabalhando individualmente, sem apoio e recursos de instituições. Você precisa de equipamentos e de troca de informações entre grupos de indivíduos. Tudo isso para que a ciência desempenhe sua função social. Escolher uma ou outra solução de interesse público exige competência. Em qual medicamento vale mais a pena investir? Temos chance de produzir álcool? Não temos? Biodiesel funciona? Podemos produzir alimentos? Atividades pontuais não resolvem. Em contrapartida, deve haver um consenso geral na sociedade de que a ciência é prioritária. Todos os países que têm o melhor desenvolvimento social são países que têm uma produção científica intensificada. As dez maiores economias do mundo têm uma produção duas vezes maior, em média, do que as do Brasil. No ranking científico, o Brasil está em torno do 14º lugar, isto é, aquém da sua própria posição no ranking econômico.

GU – Que balanço o senhor faria sobre sua atuação como membro da SBPC?
EC – Tanto na presidência quanto como secretário regional no Rio ou em outros cargos, foram 30 anos de dedicação à SBPC. Posso destacar como iniciativa que fomentou a divulgação científica, por exemplo, um encontro anual que reúne de 10 a 15 mil pessoas para discutir ciência. É uma espécie de prestação de contas da produção científica para o grande público. Também fizemos a Ciência às Seis e Meia, um ciclo de palestras cuja função era expor assuntos relacionados à ciência e à tecnologia ao público leigo. Mas uma das atividades mais importantes da SBPC foi implantar fundações de apoio à pesquisa, o que aconteceu nos anos 80. Em todos os estados, hoje, existem fundações de apoio à pesquisa. São instituições que têm uma verba consignada constitucionalmente de cada estado para, com esses recursos, oferecer bolsas e financiar projetos de longo prazo. Nos anos 90, houve a recomendação de que os recursos obtidos nas privatizações fossem, em parte, investidos em ciência e tecnologia. O Estado saía da atividade produtiva, mas deveria substituir essa sua atividade direta de produção na indústria por uma área de pesquisa científica. Hoje já temos cerca de R$ 2,5 bilhões investidos provenientes desses recursos. A SBPC também participou disso. Vale destacar também o aumento do número de bolsas para jovens estudantes que querem seguir a carreira científica. Das 10 mil bolsas anuais concedidas em 1988, passamos para 80 mil atualmente. A SPBC também promoveu em todos os estados encontros interdisciplinares de apoio à educação básica e à formação de professores, o que já mobilizou mais de 6 mil professores primários.

GU – Fale-nos sobre seu mais recente projeto, o do Museu de Ciências Naturais do Estado do Amazonas, anunciado em março deste ano, na Universidade do Amazonas.
EC – Trata-se de um museu vivo, isto é, não será uma coleção de peças para contemplação, mas uma grande reserva em Manaus que permite a visita da floresta ao vivo. Essa reserva, apesar de sua enorme extensão — cerca de dez por dez quilômetros — é dentro da cidade. A idéia é que se possa estudar uma árvore não no livro, mas lá onde ela está. Que se possa ver a fauna local não na fotografia, mas na realidade. A conservação da Amazônia está virando quase um mito. A falta de educação e de conhecimento das maravilhas que existem lá, inclusive para utilização científica, faz muitos pensarem que aquilo é só mata, que tem que derrubar mesmo. Poucos gramas da secreção de certas espécies de sapo ou de veneno de cobra, por exemplo, valem um mês de salário de um trabalhador local, pois têm um valor de mercado imenso. Só que as pessoas não se dão conta disso.

GU – O projeto do Museu inclui apenas a observação da floresta ao vivo ou também prevê visitação em espaços fechados?
EC – Na verdade, nosso projeto tem três dimensões. Uma é a pesquisa científica na área de conservação da floresta. Entender como é que o feromônio [composto químico empregado na comunicação entre animais da mesma espécie] liberado pela borboleta macho detecta, por exemplo, que a fêmea está a cinco quilômetros dele. Outra é a parte da exposição, onde os visitantes terão acesso a peças relativas à biodiversidade amazônica em um local fechado. A terceira dimensão do Museu de Ciências Naturais é o passeio pela floresta. Você quer ver formiga? Haverá três câmeras perto do formigueiro, uma lá dentro, e teremos maravilhas de imagens. Pensamos em colocar câmeras na cabeça dos pássaros. Podemos mostrar o que eles vêem ao voarem. Serpentes enxergam no infravermelho. Você pode pôr sensores e câmeras infravermelhas e ver como é a floresta pela ótica da serpente. De maneira resumida, essa proposta de monitoramento da floresta vai se basear no uso de instrumentos de fixação e captação de imagens e sensores, que hoje já estão disponíveis por preços razoáveis. Não é impossível nem tão dispendioso instalar 500 câmeras em uma reserva ecológica, como câmeras orientadas por ruído, por infravermelho ou por movimento, e você, numa sala, monitorar essas câmeras todas e tirar as melhores imagens. Hoje, existem até pequenos helicópteros pilotados a distância que levam câmeras atrás de borboletas. No entanto, precisamos trabalhar ainda questões técnicas, treinar pessoas que se disponham a aprender a filmar, por exemplo, um formigueiro por dentro. Isso ainda demanda algum tempo. É um projeto complexo, mas possível, e trará grande retorno para a ciência.

Nenhum comentário: