sábado, 26 de julho de 2008

Entrevista com o professor Marcos Pimenta pesquisador do instituto de Física da UFMG sobre o tema Nanotecnologia.

Marcos Assunção Pimenta, pesquisador do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lidera, junto com o professor Alaor Silvério Chaves, o Instituto do Milênio de Nanociências . Marcos fez pós-doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Entre suas áreas de pesquisa estão Física em nanotubos de carbono e estudo por espectroscopia Raman.

O Brasil está atrasado em Nanotecnologia ?
O Brasil possui grupos realizando trabalhos excelentes em algumas áreas de fronteira das Nanociências , que acompanham não muito de longe os países do Primeiro Mundo em pesquisa fundamental nessas áreas. No entanto, com relação à tecnologia em geral, há um descompasso importante em relação aos países mais desenvolvidos, e isto também ocorre no campo das Nanotecnologias . Temos no Brasil alguns poucos grupos trabalhando em Nanotecnologia , especialmente na área de química (catálise), fármacos e sensores.

Em quais áreas o Brasil poderia se inserir em Nanotecnologia de maneira competitiva?
Existem dois procedimentos para se obter materiais e dispositivos na escala nanométrica. É possível construir o material a partir de seus componentes básicos (seus átomos e moléculas) da mesma forma que uma criança monta uma estrutura conectando as peças de um Lego. Este é o chamado procedimento "de baixo para cima" (bottom-up). Por outro lado, é possível fabricar um objeto nanométrico a partir de um bloco maior do material, da mesma forma que um escultor constrói pequenos detalhes em uma escultura, a partir de um grande bloco de pedra ou madeira. Este procedimento "de cima para baixo" (top-down) se vale das chamadas técnicas de litografia, que corresponde a uma corrosão química seletiva e extremamente precisa de um bloco macroscópico do material. Na minha opinião, podemos ser mais competitivos na abordagem "de baixo para cima" (bottom-up), onde a síntese dos materiais e a construção dos nanodispositivos não é tão cara. Esta é uma abordagem mais recente e que não requer grandes investimentos em termos de laboratórios e equipamentos.

A infra-estrutura para pesquisa já existente permite que o Brasil dê um salto rápido em Nanotecnologia ?
Temos uma infra-estrutura bastante razoável para atacar vários problemas nas áreas de Nanociência e Nanotecnologia . Há dois anos, o CNPq montou quatro redes de pesquisa, com o intuito principal de fazer uma prospecção dos diferentes grupos trabalhando na área. Na minha opinião, este esforço foi muito importante, embora o número de membros destas redes seja muito maior do que o número de pesquisadores que realizam de fato trabalhos de qualidade nesta área. Acho que agora deve ser feito um enxugamento das redes, de modo que o apoio seja concedido para os grupos que têm tido produção de qualidade. Não devemos nem pulverizar os recursos apoiando centenas de grupos de pesquisa nem concentrá-los em um único grupo.

O senhor concorda que é preciso haver uma definição de foco para o Brasil investir em Nanotecnologia ? Quem deveria definir esse foco?
Na minha opinião, devemos apoiar todos os trabalhos de qualidade e relevância científica e tecnológica. Alguns destes trabalhos terão sucesso e outros nem tanto. Não acredito em soluções propostas por iluminados, que trabalham em gabinetes ao invés de laboratórios de pesquisa. Acho que o MCT deve fomentar projetos espontâneos de qualidade. Definição de foco e definição do grupo que vai definir o foco sempre envolve interesses e arranjos políticos. O ideal será o governo apoiar os grupos fortes, e a distribuição de recursos deve ser feita em função de pareceres de especialistas internacionais, que são em geral imunes a pressões de grupos de pesquisadores-políticos.

Qual sua opinião sobre o PPA elaborado pelo MCT?
Ele tem aspectos muito positivos, em especial em relação ao problema da formação de recursos humanos. Nanotecnologia e Nanociências são áreas interdisciplinares, que envolvem Física, Química, Biologia, Engenharias etc. A nossa pós-graduação ainda é muito fragmentada, e precisamos romper algumas amarras no sentido de fomentar uma pós-graduação interdisciplinar. O grupo que preparou o documento é de alto nível, mas talvez com um viés que priorize a abordagem "de cima para baixo" (top-down). Tenho preocupações em relação à ênfase que está sendo dada para a criação do laboratório de silício. Será que vai sobrar dinheiro para as outras áreas, que inclusive são mais baratas e atuais?

O Brasil precisa ter um laboratório de fabricação de silício, ponto principal do PPA do MCT?
Há muito tempo, anuncia-se que a era do silício está se aproximando do fim, mas o silício vem resistindo bravamente a estas previsões. Este material é altamente estratégico, e tem inúmeras aplicações tecnológicas. Acho que o Brasil precisa ter especialistas nesta área, e apoiar os grupos que vêm trabalhando com o silício. A tecnologia do silício, ao qual a microeletrônica está associada, é fundamental, precisamos de técnicas de microeletrônica para acessar o mundo nanoscópico. Por exemplo, temos um transistor nanoscópico no qual precisamos inserir fios, estabelecer conexões elétricas. Para fazer isso é importante dominar as técnicas de microeletrônica. Tenho dúvidas quanto a conveniência de se criar um novo laboratório para a pesquisa em silício. Temo que, em pouco tempo, este laboratório venha a se transformar num elefante branco. Por que não apoiar os grupos que já trabalham nesta área e modernizar os laboratórios já existentes? Se temos poucos recursos, temos de usá-los direito. Para que gastar com obras, com contratações e salários, compra de equipamento que podem ser até duplicados, ao invés de apoiar os grupos já formados?

Há muitos nichos para aplicação de silício? O Brasil poderia atuar nesses nichos?
Toda a eletrônica atual é baseada no silício e a tecnologia deste material é fundamental para se desenvolver a interface entre o mundo nanoscópico e o nosso mundo macroscópico. É óbvio que o Brasil deve dominar processos envolvendo a tecnologia do silício e, para isto, é necessário termos laboratórios de ponta nesta área e formarmos especialistas que dominem esta tecnologia. O Brasil pode não ter empresas competitivas como a Intel, por exemplo, mas precisa dominar a tecnologia e suas várias etapas. É um material muito interessante e estratégico para que a gente o ignore. Na década de 1980, houve um grande esforço no sentido apoiar a pesquisa fundamental em semicondutores, e foram abertas algumas empresas para desenvolver componentes. Muitas destas empresas não existem mais e, na minha opinião, isto se deveu ao fato de elas não terem conseguido sobreviver à competição internacional. Na época, havia uma grande expectativa de que o arseneto de gálio (GaAs) viesse a substituir o silício na eletrônica, e a maior parte dos grupos no Brasil passou a se dedicar ao estudo de semicondutores da família. Talvez tenhamos ficado, de fato, um pouco atrasados em ciência e tecnologia de semicondutores à base de silício. Sempre aparece algum material que dizem que vai substituir o silício, mas ele vem resistindo. Existem pessoas apostando que os nanotubos de carbono vão ocupar o seu lugar, mas em Harvard, por exemplo, há um grupo de pesquisa desenvolvendo dispositivos usando nanofios de silício.

Há algum país que poderia servir de modelo (com as devidas adaptações) para o Brasil em iniciativas para pesquisa, desenvolvimento e inovação em Nanotecnologia ?
Japão e EUA são bons modelos, mas investem bilhões de dólares. No Brasil, os investimento chegam, no máximo, em US$ 3 milhões, somando valores investidos nas redes e nos Institutos do Milênio. Então, se o Brasil quiser ser um país forte, precisa investir mais, não só em Nanociência , mas em ciência e tecnologia no geral. Os recursos para C&T vêm diminuindo com o passar dos anos. Na década de 1970 os investimentos eram maiores.

Todos os países que têm Nanotecnologia bem desenvolvida possuem coordenação nacional de Nanotecnologia para P&D?
Têm coordenações que envolvem não apenas o Ministério de Ciência e Tecnologia dos países, mas também ministérios de Comunicações, Energia, Saúde, Educação, Indústria e Comércio, Forças Armadas, etc. Nos EUA, o Programa de Nanotecnologia é ligado à Presidência da República. Acho que no Brasil precisamos ter uma coordenação que envolva vários ministérios, agências, como é feito em outros países.

Como fazer para que Nanociência "vire" Nanotecnologia ?
É uma questão complicada e mais ampla. A pergunta é: como ciência vira tecnologia? Primeiro, é difícil fazer essa distinção, não existe tecnologia sem ciência. A ciência entende os mecanismos básicos, como as coisas funcionam, é a base, a fundação de um prédio. A partir dela, procura-se usar essas habilidades para a aplicação. Somos muito fortes em ciência, produzimos mais de 1% da ciência mundial. O que nos falta fazer para a aplicação? Acho que precisamos promover uma interface maior entre as engenharias e a ciência básica, ter uma pós-graduação interdisciplinar, que reúna a Física, a Biologia, a Medicina, as Engenharias etc. Também é necessário um ambiente favorável para que as companhias prosperem, para que os cientistas que tenham boas idéias possam abrir uma empresa, ter um sistema de incubadoras. E, obviamente, é preciso ter uma economia estável para que os capitalistas possam investir e ter retorno. Há também um problema de mentalidade, o empresário prefere investir em mercado de ações e fundos de investimento, ao invés de fazê-lo em projetos que podem dar certo ou não.

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